Infecções retrofaríngeas e laterofaríngeas em crianças: A experiência de um hospital pediátrico durante a última década

  • Isabel Correia Interna do Internato Complementar do Serviço de ORL do Centro Hospitalar Lisboa Central (CHLC): Hospital Dona Estefânia (HDE)
  • José Colaço Interno do Internato Complementar do Serviço de ORL do CHLC: Hospital Dona Estefânia (HDE)
  • Cecília Elias Interna do Internato Complementar do Serviço de ORL do CHLC: Hospital Dona Estefânia (HDE)
  • Herédio Sousa Assistente Hospitalar do Serviço de ORL do CHLC: Hospital Dona Estefânia (HDE)
  • Luísa Monteiro Chefe de Serviço Hospitalar e Directora do Serviço de ORL do CHLC: Hospital Dona Estefânia (HDE)
Palavras-chave: Infecções retrofaríngeas, infecções laterofaríngeas, infecções cervicais profundas, fleimão, abcesso, drenagem cirúrgica, complicações

Resumo

Introdução: Apresentando-se muitas vezes de forma insidiosa e mascarando-se por tratamentos efectuados previamente, as infecções retro e laterofaríngeas são um desafio diagnóstico. São pouco frequentes na era antibiótica moderna, mas têm capacidade para causarem complicações potencialmente fatais.

Material e métodos: Estudo retrospectivo dos casos e análise de dados relativos à epidemiologia, etiologia, apresentação clínica, diagnóstico, tratamento e complicações, de crianças diagnosticadas com infecções retro e laterofaríngeas, no nosso hospital pediátrico, desde Janeiro 2001 a Janeiro 2012.

Resultados: Foram incluídas no estudo 23 crianças, com idades compreendidas entre os 3 meses e os 8 anos, com uma média de idades de 47 meses (4 anos). Treze (57%) apresentavam infecções retrofaríngeas, 2 (9%) infecções laterofaríngeas e 8 (35%) ambas. A incidência de casos foi maior no ano de 2010 (4 casos). Doze (52%) eram do sexo masculino e 11 (48%) do sexo feminino. A odinofagia (57%), a cervicalgia (26%) e a recusa alimentar (22%) foram as queixas mais comuns à apresentação. A febre (87%), o torcicolo e a rigidez cervical (65%), a tumefacção cervical (52%) e a prostração (35%) foram os achados físicos mais frequentes. Todos (100%) os doentes receberam antibioticoterapia endovenosa. O tratamento médico sem drenagem foi inicialmente proposto para 15 (65%) crianças. A falência no tratamento médico, requerendo cirurgia, ocorreu em 5 (33%) delas. Num dos casos, foi necessário efectuar uma nova drenagem cirúrgica. O tratamento cirúrgico foi inicialmente proposto para 8 (35%) crianças, tendo sido efectuado durante as primeiras 24 horas. Este tratamento não teve falência em nenhum (0%) dos casos, não tendo sido necessária a realização de uma segunda cirurgia. No entanto, numa das crianças, por aparecimento de um novo abcesso noutra localização, houve necessidade de se proceder à sua drenagem. Duas (9%) crianças tiveram complicações: mediastinite, trombose da veia jugular e síndrome de Claude Bernard Horner.

Conclusões: Os sintomas na apresentação das infecções retro e laterofaríngeas na população pediátrica são variados, requerendo o seu diagnóstico um elevado índice de suspeição. O tratamento correcto e atempado é fundamental para um prognóstico favorável. O tratamento ideal nos doentes sem obstrução iminente da via aérea é controverso e objecto de debate, particularmente a escolha entre tratamento médico ou cirúrgico como primeira linha. Torna-se portanto, essencial, maior investigação nesta área, de forma a optimizar resultados.

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Como Citar
Correia, I., Colaço, J., Elias, C., Sousa, H., & Monteiro, L. (1). Infecções retrofaríngeas e laterofaríngeas em crianças: A experiência de um hospital pediátrico durante a última década. Revista Portuguesa De Otorrinolaringologia E Cirurgia De Cabeça E Pescoço, 53(1), 27-33. Obtido de https://journalsporl.com/index.php/sporl/article/view/558
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Artigo de Revisão